O caso de Santa Catarina relembra a importância dos arquitetos e urbanistas
Há algum tempo estava pensando em postar algo sobre a relevância e/ou ausência dos arquitetos e urbanistas no planejamento das cidades brasileiras… Infelizmente, a tragédia das enchentes em Santa Catarina tornou-se um momento oportuno:
É inegável a imprevisibilidade dos fenômenos naturais e o seu poder de destruição, apesar dos avanços tecnológicos e do conhecimento humano. Em episódios como esse, a natureza demonstra toda a sua potência diante da insignificância de nossas cidades; deixa um rastro de perdas e impotência…
E agora, o que fazer? Em meio à perplexidade das perdas humanas, os primeiros esforços se concentram (e realmente devem se concentrar) na comunidade: remoção da população das áreas de risco, criação de alojamentos, entrega de suprimentos, controle de doenças e epidemias, auxílio material e psicológico na tentativa de amenizar, ao menos parcialmente, os estragos causados pelo imprevisto…
Em um segundo momento, começa a reconstrução racional das cidades afetadas. E é justamente nesse ponto (em alguns casos apenas nesse ponto), que os planejadores urbanos entram em cena no reforço de reorganização das cidades. Antes desses casos excepcionais, ocupações irregulares incham as zonas urbanas; áreas de alagadiços são utilizadas para urbanização; encostas e morros são desmatados; reservas ecológicas são desconsideradas. Rios são poluídos pela ausência de redes urbanas adequadas, canais são assoreados e cobertos para aumentar o solo das cidades, espécies vegetais que regulam o micro clima são degradadas e áreas de declive são desordenadamente ocupadas (não apenas por assentamentos irregulares motivados pelo déficit habitacional ou ausência de moradia)…
E nós, profissionais (arquitetos, urbanistas, engenheiros, paisagistas, geógrafos…), ainda estamos lá, estudando planos urbanísticos, zoneamento das cidades, definindo afastamentos e altura dos edifícios, a taxa de ocupação do solo, formatando os limites entre as áreas edificáveis e as zonas de risco… Desenhamos do plano macro ao detalhe de uma calçada ou mobília urbana. Mas ao final, tem-se um planejamento elástico, esgarçado por diversos interesses que descaracterizam ou materializam parcialmente os planos iniciais… São cortes de orçamento, falta de interesse… adição de muitos interesses…
E, mais uma vez, os profissionais urbanos não são ouvidos e, na falta de importância que a profissão “conquistou” no cotidiano, permanecem sem voz…
No caso de Santa Catarina, o problema não é tão simples ou racional, mas é possível confrontá-lo parcialmente com os benefícios que o arquiteto e urbanista tem a oferecer ao desenvolvimento estruturado das cidades. Eis aí uma oportunidade de reflexão…